A tese de mestrado da oftalmologista Dra Carina Costa Cotrim testou o autotransplante de células-tronco derivadas da medula óssea, realizado por meio do procedimento de injeção intraocular, em pacientes portadores de DMRI seca. Os resultados mostraram melhora da visão e maior estabilidade na fixação dos pacientes com DMRI. O resultado positivo atingiu, principalmente, aqueles menos comprometidos, e ainda, mostrou melhora da qualidade de vida desses pacientes. O estudo foi realizado no Serviço de Retina e Vítreo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP.

Dra Carina conversou com o Eye Channel e de forma didática explicou o teor de seu estudo.

 

Eye Channel: Parabéns pela excelente tese, Dra Carina. Qual foi o objetivo do seu trabalho?

Dra Carina: O objetivo foi avaliar a segurança do uso intravítreo da fração mononuclear derivada da medula óssea contendo células CD34+ ( Células tronco da medula óssea) em pacientes portadores de DMRI seca.

 

Eye Channel: Como foi realizado o estudo?

Dra Carina: É um estudo clínico, prospectivo, fase 1/ 2. Dez pacientes com DMRI avançada foram selecionados. No dia da aplicação, o material da medula óssea era coletado da crista ilíaca posterior, depois processado no setor de terapia celular do hemocentro HC – RP e, em seguida, 0,1 ml da solução  ( em média 1,68 x 104 células) era injetada no olho de pior visão. O paciente era avaliado um dia após, 1, 3, 6, 9 e 12 meses com exames de acuidade visual, angiofluoresceinografia, autofluorecência, Infrared, OCT, microperimetria, eletrorretinografia multifocal e questionário de qualidade de vida VFQ-25. Por se tratar de células autólogas, dispensou o uso de imunossupressores.

 

Eye Channel: Quais foram os resultados encontrados no estudo?

Dra Carina: O estudo mostrou-se seguro, sem crescimento de tumores, descolamento de retina ou endoftalmite. De forma positiva, houve diferença significativa na acuidade visual em todo o seguimento. Comparamos a melhora da visão e da microperimetria com pacientes que apresentavam maior área de atrofia com aqueles que apresentavam menor área de atrofia medidas no infrared. Os de menor área obtinham resultados melhores. Acreditamos no efeito parácrino da células tronco, ou efeito trófico, que consiste na liberação de fatores tróficos que resgatam as células não funcionantes em sofrimento, mas que ainda não morreram. Em relação ao VFQ-25, houve melhora  significativa na saúde mental e visão de cores.

 

Eye Channel: Com base nesses resultados, qual foi a sua principal conclusão sobre o estudo?

Dra Carina: O uso intravítreo das células tronco derivadas da medula óssea se mostrou seguro e com potencial terapêutico para pacientes com DMRI na forma seca.

 

Eye Channel: Qual sua previsão para o futuro deste tratamento?

Dra Carina:  Esse estudo é uma esperança para o tratamento da DMRI seca, mas uma maior casuística será necessária para confirmar os resultados. Novo projeto está em andamento.

A Dra Carina Cotrim lembra também que diversas células-tronco estão sendo estudadas para as doenças oculares em todo o mundo. Células semelhantes às utilizadas em seu estudo também foram avaliadas pela pesquisadora Susanna Park na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e também mostraram resultados animadores.

Participaram também do estudo Luiza Toscano, André Messias, Rodrigo Jorge e o professor Rubens Camargo Siqueira, que foi orientador do mestrado.